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O uso da letra de forma X letra cursiva na alfabetização – uma dualidade questionável


A opção por uma ou outra ainda diverge o posicionamento dos especialistas em educação 
 

 

Antes de iniciarmos nossa discussão acerca do assunto em pauta, relembremos das ideias propostas por Jean Piaget, as quais se baseiam no método da investigação, ou seja, o aluno é levado a encontrar as respostas a partir de seus próprios conhecimentos e de sua interação com a realidade e com os colegas. Possivelmente, tais elucidações tendem a conduzir-nos ao ponto central de nossa discussão: entre a letra cursiva e a de forma... qual delas tem maior eficácia no processo de alfabetização?   

Nesse processo de interação com a realidade a qual se encontra inserido, o aluno tende a se identificar profundamente com aquilo que presencia. Dessa forma, em se tratando da letra de forma, há que se constatar sua recorrência nas mais diversas circunstâncias que norteiam o cotidiano, como por exemplo: nas teclas do computador, nos outdoors, nos livros, na televisão, jornais, rótulos, embalagens, nas placas de trânsito, entre outras. Assim sendo, o emprego da letra cursiva se restringe somente ao ambiente escolar. Mediante tal ocorrência, eis que surge uma indagação de caráter relevante: essa familiaridade com a letra de forma não facilita uma melhor apreensão do conhecimento?

Procurando dar uma maior ênfase ao nosso propósito, torna-se interessante elencarmos algumas características inerentes ao emprego de ambas as letras, uma vez manifestadas por pontos que divergem entre si. Assim, vejamo-los:
 

 

Letra de forma (também conhecida como bastão)

 Letra cursiva

Disseminada nas escolas construtivistas

 Escola tradicional

Torna-se menos dispendiosa, pois exige um esforço menor do aluno. Assim, ele domina melhor os movimentos da escrita.

 Ao ter que desenhá-la, o aluno tende a encontrar mais dificuldades em dominar tais movimentos. 

Em virtude da convivência com tal modalidade, a criança não sente dificuldades em reconhecer o alfabeto.

 Como o contrário ocorre, sendo sua recorrência  restrita somente ao espaço escolar, o reconhecimento não se dá de forma espontânea.



Mesmo em face desses pressupostos, somados ao fato de que o uso dos famosos cadernos de caligrafia está cada vez menos integrando as práticas educativas, vale dizer que ainda não há um consenso entre educadores, pais e especialistas, tampouco uma literatura que reforce essa questão. O que se pode constatar são as divergências existentes entre eles, assim como nos revelam as palavras de Magda Soares, professora emérita da Faculdade de Educação da UFMG:

"No momento em que a criança está descobrindo as letras e suas correspondências com fonemas, é importante que cada letra mantenha sua individualidade, o que não acontece com a escrita ‘emendada’ que é a cursiva; daí o uso exclusivo da letra de imprensa, cujos traços são mais fáceis para a criança grafar, na fase em que ainda está desenvolvendo suas habilidades motoras".

Bem como o discurso proferido por Elvira de Souza Lima, a qual demonstra não estar tão empenhada na discussão, mas mesmo assim revela: "Os processos de desenvolvimento na infância criam a possibilidade da escrita cursiva".

E acrescenta Magda Soares, a qual atribui o empego da letra cursiva à ansiedade demonstrada pelas crianças em começar a escrever – fato que as conduz a fazer uso de tal modalidade. E revela:

"Penso que isso se deve ao fato de que veem os adultos escrevendo com letra cursiva, nos usos quotidianos, e não com letras de imprensa".

Nesse sentido, manifestadas todas as divergentes opiniões, cabe ainda ressaltar que mesmo que o processo de alfabetização venha recebendo cada vez mais o apoio da neurociência, estudos ainda são insuficientes no intuito de se declarar o desuso definitivo da letra cursiva ou sua efetiva ascensão. Enquanto alguns neurocientistas declaram-se adeptos dessa modalidade, em virtude de exigir maior esforço de integração entre as áreas simbólicas e motoras do cérebro, auxiliando a criança a adquirir fluência, há uma outra corrente de pesquisadores, os quais afirmam que se a cursiva desaparecer, as habilidades cognitivas serão substituídas por novas, sem nenhum fator consequente. 

Portanto, não nos resta outra alternativa senão assistirmos à evolução dos fatos, e aguardarmos os possíveis resultados, que porventura ocorrerão. 

 Por Vânia Duarte
Graduada em Letras
Equipe Brasil Escola

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  • quarta-feira | 26/02/2014 | yatambira

    muito bom

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