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Os heróis e vilões da História


Lênin, Napoleão e Hitler: figuras que despertam o interesse dos alunos em sala de aula.


Em diversos temas trabalhados em sala de aula, existe certo destaque a determinados personagens históricos que atuaram constantemente em algum processo. Consequentemente, alguns alunos despertam seu interesse em saber um pouco mais sobre alguns indivíduos que parecem ter sido imprescindíveis para que uma revolução, guerra ou conquista tivesse sido possível. Sem dúvida, podemos perceber nesse tipo de situação uma forma de despertar o interesse da classe para o conteúdo.

Contudo, existem algumas outras implicações bem mais problemáticas sobre o interesse em personagens como Ernesto Che Guevara, Napoleão Bonaparte, Lênin ou Alexandre, O Grande. Os próprios alunos, o professor ou, até mesmo, os livros didáticos estabelecem certo tipo de ênfase capaz de “heroicizar” ou “demonizar” determinadas indivíduos do passado. Tal exercício, apesar de instigante, acaba em um julgamento de figuras que simplesmente não compreenderiam nossos valores e idéias.

Se formos pensar com o devido rigor, não podemos ter certeza sobre as intenções e idéias de um indivíduo por meio da mera consulta aos documentos. Para dar exemplo disso, poderíamos pensar se haveria formas seguras que comprovassem a determinação do mesmo em ir contra as imposições do regime colonial. Afinal de contas, ele esteve preocupado em melhorar as condições de vida da população mineira? Teria Tiradentes um senso de justiça capaz de encorajá-lo a defender seus ideais até a morte?

Saindo dos personagens heróicos para aqueles que são negativamente criticados por alguns dos leitores e pesquisadores, poderíamos também problematizar a figura do ditador Adolf Hitler. Teria esse, desde seus primeiros anos de vida, uma tendência a acreditar na inferioridade das raças? Teria ele alguma outra intenção quando defendia a idéia de que os alemães seriam integrantes de uma raça superior? Sem dúvida, essas são questões difíceis de responder.

Cabe ao professor, quando questionado em sala de aula sobre o comportamento de alguma famosa personagem, estabelecer um tipo de reflexão que considere as contingências e os valores de uma determinada época. Traçar um perfil psicológico ou acreditar que um determinado personagem histórico estaria predestinado a um feito, desconsidera as características inerentes ao tempo histórico. Dessa forma, o professor teria a tarefa de apontar um lado menos grandioso de sua área de conhecimento.

O que se põe em questão é colocar em destaque que um determinado sujeito histórico é fruto das relações que o mesmo empreende com seu tempo. Se Hitler, por acaso, tivesse uma promissora carreira como artista ou não tivesse lutado na Primeira Guerra estaria disposto a transformar o cenário político de seu país? Ou mesmo se a Alemanha estivesse atravessando os difíceis problemas teria ele inevitavelmente tomado a frente do Partido Nazista?

Por meio desse sem número de possibilidades o professor deve demonstrar que, mais que os feitos individuais, todo um contexto deve ser considerado no momento em que se estuda um determinado acontecimento do passado. Ao mesmo tempo, mesmo enxergando uma relação causal entre esse contexto e uma personagem, não haveria “inevitáveis garantias” que pudessem justificar o desfecho dado a um outro fato histórico.

Apesar de complexo, esse tipo de questionamento profundo apresentado dentro da História pode ainda ser colocado por meio do trabalho com uma canção que pode reafirmar de maneira simples a questão aqui problematizada. Como sugestão, indicamos a leitura e discussão da canção “Saiba”, do cantor e compositor Arnaldo Antunes. De forma bastante simples, podemos abrir caminho para uma interessante reflexão sobre o tempo e os homens.

Quando ressalta coisas que aconteceram com pessoas simples e consagradas, o autor parece trazer à tona a idéia de que todos são iguais. Contudo, no momento em que se utiliza de conhecidas personagens do passado, permite que compreendamos que os homens estão subordinados a completa imprevisibilidade do porvir. Assim, deixamos de acreditar em um determinado destino histórico, para nos situarmos no campo de possibilidades que levam alguém a um determinado tipo de situação.


Por Rainer Sousa
Graduado em História
Equipe Brasil Escola


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