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O ensino da sintaxe

O ensino da sintaxe, baseado em regras e nomenclaturas, pode ser desestimulante
O ensino da sintaxe, baseado em regras e nomenclaturas, pode ser desestimulante 

A sintaxe = REGRAS + NOMENCLATURAS = POSTULADOS GRAMATICAIS.  Eis aí uma fórmula básica quando o assunto se refere ao ensino de Língua Portuguesa. Assim, com base nesse pressuposto, discutiremos acerca desta realidade tão presente no cotidiano da maioria dos educadores, com vistas a elencar os pontos que norteiam tal ocorrência, bem como propor algumas estratégias metodológicas no sentido de contribuir para que as aulas se tornem mais diversificadas e proveitosas.

Como ensinar análise sintática se os educandos mal sabem o que é substantivo, advérbio, adjetivo, verbo, preposição...? Elementos esses que se transformam em: sujeito, adjunto adverbial, predicativo do sujeito, predicado, objeto indireto...

Essa falta de conhecimento e, pior, essa falta de interesse em aprender os fatos linguísticos são oriundas da repulsa que muitos deles possuem pela gramática – fato que vai tornando as aulas de Língua Portuguesa cada vez menos interessantes e, sobretudo, menos desejadas.                     

Regras, nomenclaturas, entre outros aspectos, são fatos inevitáveis de ocorrer. No entanto, a partir de uma didática diferenciada, todo esse “panorama” antes retratado pode aos poucos se reverter. Com isso, é possível conscientizar nossos aprendizes quanto à necessidade de adequação a essas regras, quebrando paradigmas, vencendo barreiras, suprimindo dificuldades, enfim...

Como proposta, o educador pode utilizar um conhecido poema de Paulo Leminski, intitulado “O assassino era o escriba”, retratado adiante:

Poema de Paulo Leminski que aborda questões voltadas para os elementos sintáticos
Poema de Paulo Leminski que aborda questões voltadas para os elementos sintáticos

Considerando que já tenham sido dadas aulas expositivas e dialogadas acerca de alguns conceitos inerentes ao estudo da sintaxe (tais como: sujeito, predicado, complementos verbais, período composto por coordenação e subordinação, entre outros), alguns procedimentos demostram seu teor de relevância, entre eles:  

* Primeiramente, após uma leitura atenta e individual do texto em questão, solicite que os alunos destaquem termos próprios do estudo voltado para a sintaxe. 

* Em seguida, aborde os recursos estilísticos utilizados pelo autor para a construção do discurso. A ironia seria um deles? Para responder esta questão, há alguns pontos passíveis de serem levantados, tais como:

- Por que o “eu lírico” deixa claro que o professor de análise sintática era um sujeito inexistente? Ora, alguém inexistente? E os alunos, também o concebem assim (levando-se em conta o professor de Língua Portuguesa)? Se sim, qual o motivo de tal concepção? Eis aí algo que pode reforçar a discussão e, consequentemente, aprimorar o poder de argumentação dos alunos – capacidade elementar ao emissor em determinadas circunstâncias comunicativas.

- Por que o pleonasmo era o principal predicado do professor em questão? Partindo do conceito de pleonasmo e predicado, podemos muito bem nos perguntar: será que uma de suas virtudes (características) era somente dizer... coisas sem necessidades? Pleonásticas?

- Regular e paradigmático. Aí entra a questão das conjugações verbais, as quais, sendo regulares, obedecem a um paradigma definido. Mas e em se tratando do famoso professor... será que ele vivia “regulando” seus alunos? 

- Coitado! Casou-se logo com uma regência. Será que ele sempre era regido por ela, tal como os verbos são regidos pelos seus complementos? Para variar, ela era bitransitiva, assim como os verbos, ora transitivos diretos, ora indiretos. Será que ela possuía dupla personalidade?

- Quando o tal professor tentou viajar, acharam logo um artigo indefinido em sua bagagem. Ora, artigo indefinido é aquele que... não se define, é óbvio. É bom nem pensar que “artigo” seria esse, não é verdade?

- Mediante o fato acontecido, a interjeição do bigode declinava partículas expletivas, agentes da passiva e conectivos o tempo todo. Sim, por certo essa atitude “interjeitiva” (será um neologismo?) deve-se ao fato de ele expressar suas emoções (interjeição) diante do ocorrido, e mais uma vez as partículas expletivas estavam sendo declinadas, isto é, ele estava proferindo algo desnecessário.

- Que chato! Foi morto logo por um objeto direto na cabeça. Nossa! Assim como o objeto direto complementa o verbo, tal atitude se deu para complementar toda essa coleção de adjetivações a respeito do tão discutido professor.

Outro aspecto que também poderá ser abordado faz referência a uma das funções da linguagem – a metalinguística, ou seja, o artista se utiliza da linguagem para explicar a própria linguagem.

Por fim, uma significativa indagação poderá ser feita, até mesmo a título de promover uma atividade reflexiva acerca do seu posicionamento, educador (a): por que o aluno (ou os alunos, de forma geral), ao final, resolveu matar o professor, mesmo que em sentido figurado? Não seria essa atitude de matar uma expressiva sinonímia de... ignorar? Eis um caso para reflexão.


Por Vânia Duarte
Graduada em Letras
Equipe Brasil Escola

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