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Hobbes x Maquiavel: as diferentes concepções de Estado


Hobbes e Maquiavel: uma rica discussão sobre as formas de se organizar o Estado.


Quando lidamos com movimentos intelectuais em sala de aula, devemos ter a preocupação de ressaltar alguns pontos de natureza fundamental. Sem dúvida, os alunos não devem imaginar que um determinado movimento de ideias seja o simples resultado do esforço de indivíduos isolados, portadores de uma sabedoria que os colocava à frente dos demais. Pelo contrário, deve-se expor que todo fato de tal natureza só pode ser compreendido pela contraposição de perspectivas.

A exposição dessa diferença de opinião pode ser altamente produtiva, especialmente se contabilizarmos que todo o grande pensador pensa historicamente. Para tanto, não é necessário que encontremos a figura de um intelectual que faça menção direta a outro autor ou obra que seja anterior ou contemporânea à sua. Na qualidade de intérpretes, os próprios alunos e professores podem empreender esse diálogo entre dois pensadores de um mesmo tema.

No que tange às teorias de organização do Estado, o professor pode realizar uma rica exposição ao promover o diálogo entre Nicolau Maquiavel e Thomas Hobbes. Sendo homens de tempos históricos diferentes, não poderiam elencar os mesmos elementos de organização de um governo. Para que isso seja exposto à turma, sugerimos que a fala de cada um dos pensadores seja exposta aos alunos. Dessa maneira, assinalamos as seguintes citações:

“O príncipe não precisa ser piedoso, fiel, humano, íntegro e religioso, bastando que aparente possuir tais qualidades (...). O príncipe não deve se desviar do bem, mas deve estar sempre pronto a fazer o mal, se necessário.Nicolau Maquiavel, O Príncipe.

“(...) ao introduzir aquela restrição sobre si mesmos sob a qual os vemos viver nos Estados, é o cuidado com sua própria conservação e com uma vida mais satisfeita. (...) quando não há um poder visível capaz de os manter em respeito, forçando-os, por medo do castigo, ao cumprimento de seus pactos e ao respeito àquelas leis de natureza.”  – Thomas Hobbes, Leviatã.

Na primeira constatação, podemos destacar que a condução do governo está orientada, segundo Maquiavel, pelas ponderações do governante. Dotado de amplos poderes, este deveria ter o equilíbrio e o senso necessários para que a ordem fosse mantida. Com isso, podemos perceber que este pensador italiano julgava que “o príncipe” deveria simplesmente abandonar o controle dos pressupostos morais para que tivesse condições de imperar.

Em contrapartida, Hobbes não acreditava que poderia existir um homem suficientemente capaz de alimentar essa situação de equilíbrio. Por isso, acabou optando por um instrumento de natureza impessoal que regulasse a organização do Estado. Nesse caso, ele acreditava que “não há um poder visível capaz de manter [os homens] em respeito” que somente o “cumprimento de seus pactos” poderia regulamentar a vida dos homens em sociedade.

Ao desacreditar na força do poder visível, Hobbes vai contra a perspectiva de Maquiavel, onde temos dada a importância de um príncipe sempre preocupado em regular a manutenção do governo. Além disso, temos dada a sugestão de que as leis estejam acima dos homens, seja lá qual for a sua origem social, cargo político ou orientação ideológica. Dessa forma, fica destacada a diferença de perspectiva entre as teorias absolutista e iluminista, respectivamente.


Por Rainer Sousa
Graduado em História
Equipe Brasil Escola


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