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A ditadura e os EUA


Lincoln Gordon, João Goulart e as agitações que antecederam o Golpe de 1964.


Falar em sala de aula sobre o governo João Goulart coloca qualquer professor de história em uma curiosa situação. Afinal de contas, as polêmicas em torno do golpe de 1964 ocupam um espaço muito maior do que as outras questões desenvolvidas nos anos anteriores do seu mandato. Muitos alunos especulam sobre os fatores que determinaram o fim do regime democrático e abriram caminho para que o país fosse controlado por uma ditadura ao longo de duas décadas.

Nesse sentido, vale salientar que o golpe militar não pode ser visto como resultado da ação de homens fardados que representavam as Forças Armadas. Além dos militares, vemos que diversos grupos da sociedade civil também concordavam com a instalação do regime militar e, logo que organizado, contribuíram para que os opositores deste regime fossem perseguidos. É de suma importância mostrar o golpe como uma soma de fatores que o viabilizaram politicamente.

Retomando o contexto da Guerra Fria, devemos salientar junto à classe que a ditadura em nosso país também deve ser vista como resultado do cenário político internacional. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, EUA e União Soviética disputavam cada palmo das nações que estariam sob a sua influência. Capitalismo e socialismo eram os modelos que imperavam em grande parte das nações espalhadas pelo mundo.

Nesse clima de disputas, os EUA tinham claras intenções de garantir a sua hegemonia sobre o continente americano. Tal preocupação só aumentava na medida em que a Revolução Cubana de 1959 literalmente cravou um ponto de influência socialista nas Américas. Dali em diante, a grande preocupação norte-americana era fazer o possível para que outras “Cubas” não surgissem ao longo do continente. Para tanto, apoiaram a instalação de governos ditatoriais em diferentes locais da América Latina.

Ao falar desse apoio, o professor deve salientar que isso não quer dizer que existam amplas provas que determinam o elo entre a ditadura militar e os EUA. Contudo, o professor pode empreender uma atividade na qual os alunos assumam a função de críticos sobre o momento vivido antes do golpe militar. Para tanto, indicamos o uso do curioso telegrama enviado por Lincoln Gordon, então embaixador norte-americano no Brasil:

"Para minimizar a possibilidade de uma guerra civil prolongada [no Brasil] e garantir o apoio de um grande número de adeptos, seria crucial a nossa capacidade de demonstrar apoio e uma certa exibição de força com grande rapidez. Para esse fim, e de acordo com nossas conversas em Washington no dia 21 de março, uma possibilidade parece ser o rápido envio de uma força-tarefa naval para manobras no Atlântico Sul, trazendo-a a uma distância de dois dias de Santos.”


Utilizando dessa frase, o professor pode lançar um grande número de questões pertinentes ao período histórico estudado. Inicialmente, podemos salientar que o estadista fala sobre a “possibilidade de uma guerra civil”. Afinal, que guerra seria essa e quais os lados se colocariam em oposição na mesma? Por meio dessa questão, podemos vislumbrar os grupos políticos que se envolveram em todo cenário que deu origem ao golpe militar de 1964.

Ao mesmo tempo, podemos ver os limites em que a participação dos EUA sucedeu na instalação do regime militar. O envio de embarcações de guerra é colocado como uma medida preventiva que poderia encurtar a instalação do governo militar através de uma “exibição de força”. Paralelamente, a colocação das embarcações “a uma distância de dois dias de Santos” igualmente demonstra o interesse da ação norte-americana somente se a tomada de poder não ocorresse conforme o esperado.

Dessa forma, o aluno pode ver que o golpe militar brasileiro não aconteceu somente pela articulação de grupos internos. A Guerra Fria e o interesse dos EUA para com o país tiveram ação atuante ao repassar informações importantes para o governo que representava e solicitar apoio para a ação golpista. Outras nuances, muitas vezes não trabalhadas em livros didáticos, passam a se tornar palpáveis para os alunos que estudam a Ditadura Militar no Brasil.


Por Rainer Sousa
Graduado em História
Equipe Brasil Escola


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